
A Rede de Escolas de Saúde Pública da América Latina (RESP), com apoio da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/ FIOCRUZ), organizou e realizou, no dia 25 de março de 2024, o webinário "Dengue na América Latina: situação, preparação e resposta dos sistemas de saúde". O evento teve a mediação do pesquisador titular em Saúde Pública e coordenador da Assessoria de Cooperação Internacional (ACI/ ENSP), André Périssé, e contou com as participações de Carlos Frederico Albuquerque e Melo, Oficial Nacional em Arboviroses e representante da Organização Panamericana da Saúde (OPAS) no Brasil, e de José Rodríguez, consultor internacional de epidemologia do Programa Regional de Enfermidades Arboviroses, da OPAS.
O evento começou com o professor e pesquisador da ENSP/ FIOCRUZ, André Périssé, pontuando a importância de se falar de dengue nos dias atuais: "É um tema que aflige a todos nós, atualmente, e que saiu como um tópico importante pra ser discutido dentro da nossa rede". Mais à frente, apresentou um pouco da história da RESP: "A rede foi fundada em 2019 e atualmente conta com cerca de vinte e três instituições de doze países da América Latina e Caribe, a maioria países de língua espanhola, e temos também algumas instituições associadas". Segundo Périssé, este é o primeiro webinário de uma série que será desenvolvida ao longo do ano.
O primeiro convidado a se apresentar foi o dr. Carlos Frederico, alertando para o crescimento das epidemias de dengue com o passar dos anos. O ano de 2024 já se apresenta como um ano pandêmico no Brasil: em 2023, o total dos casos de dengue chegou a um milhão e seiscentos mil no país; só neste período de 2024, foram registrados um milhão e oitocentos mil casos da doença. "Um aumento de quatrocentos por cento comparando o mesmo período do ano passado", ressalta. "Em onze semanas epidemiológicas, o número de casos já ultrapassou o número de 2023". O pesquisador apresenta o ranking de casos por Unidade Federativa (UF): Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Distrito Federal, Rio de Janeiro e Goiás lideram o ranking. Com o aumento da quantidade de casos, houve o aumento do número de óbitos. E foi possível traçar um perfil etário dos óbitos confirmados para dengue: no Distrito Federal, cinquenta por cento dos óbitos estão na faixa dos sessenta anos; já no Rio de Janeiro, a porcentagem de óbitos aumenta entre os mais idosos, com mais de sessenta anos; na Bahia, os óbitos concentram-se numa população mais jovem, com média de quarenta anos.
Um dado interessante trazido pelo biólogo é que no Brasil a dengue não pode ser vista de forma isolada em relação à chikungunya, e que num momento de epidemia de dengue a identificação dos casos de outras doenças é um grande desafio. "A epidemia de dengue mobiliza muito a comunicação pra dengue e acaba criando um pensamento generalizado de dengue, diminuindo a sensibilidade pra suspeição de chikungunya. Nesse contexto, é importante a gente mapear esse desafio, de perceber outras transmissões ocorrendo, citando aqui outras arboviroses", avalia. Através de gráficos, Carlos Albuquerque mostra que a região Centro-Oeste é a região com o maior número de casos da doença e que há uma tendência de aumento dos casos na região Nordeste. Entre os fatores favoráveis ao aumento da transmissão da dengue, apontados pelo pesquisador, estão as alterações climáticas e o El Niño. Mudanças ambientais, biologia e ecologia dos vetores e hospedeiros, e questões demográficas, sociais e econômicas das populações são outros fatores importantes para a transmissão da doença.
Outro assunto importante abordado pelo pesquisador trata da nossa estrutura de fronteira e da transmissão da dengue, bem como dos recursos para combater a doença nessas regiões. No Brasil, segundo o especialista, os municípios da faixa de fronteira possuem os maiores números de casos da doença e fazer a cobertura vacinal dessas regiões é um grande desafio, por se tratar de regiões com serviços de saúde precarizados. Entre outros desafios para a vigilância e controle de doenças na faixa de fronteira estão a baixa sensibilidade do sistema de vigilância (baixa detecção e subnotificação dos dados), vulnerabilidade socioeconômica da população, tamanho da fronteira, fluxo intenso de pessoas entre os municípios de fronteira, múltiplas cidadanias e presença do crime organizado, especializado nas questões de fronteiras devido às suas atividades.
Com o objetivo de diminuir a gravidade da doença e o número de óbitos, o dr. Carlos Albuquerque aposta na qualificação da Atenção Primária à Saúde (APS) e dos seus profissionais. Com investimentos direcionados à atenção primária, o Brasil amplia a capacidade das redes de atendimento à doença. "Nesse contexto, a gente tem que pensar numa capacitação de profissionais de saúde e na organização dos serviços, que vai ser determinante nesse processo, pra impactar o número de óbitos de dengue", pondera.
Já o consultor internacional de epidemiologia da OPAS, José Rodríguez, trouxe um panorama mais abrangente da situação da epidemia de dengue na América Latina, uma visão mais ampla da disseminação da doença e das ações de controle, bem como a situação de disseminação e controle das arboviroses chikungunya e zika. Entre as três doenças, a mais disseminada na América Latina e que merece, portanto, uma atenção redobrada é a dengue, que tem registrado o número de mais de vinte e cinco milhões de casos entre 2014 e 2024, seguida pela chikungunya, com pouco menos de quatro milhões de casos, e, por último, a zika, com pouco mais de novecentos mil casos da doença no mesmo período (2014 - 2024). "Em quatro décadas, os casos de dengue se multiplicaram a cada dez anos", informa Rodríguez. "Na América Latina, entre 1981 e 1991, foram registrados um milhão e seiscentos mil casos; entre 1991 e 2001, um total de três milhões e cem mil casos; entre 2001 e 2011, sete milhões e oitocentos mil registros da doença; e entre 2011 e 2021, chegamos a quinze milhões e oitocentos mil casos de dengue. O ano de 2023 foi o de maior incidência da doença na história: em toda a América Latina foram registrados dez milhões e quinhentos mil casos da doença". Segundo o consultor, para 2024 espera-se uma média de trinta milhões de casos no continente latino-americano. De acordo com o gráfico apresentado, houve um crescimento de duzentos e sessenta e cinco por cento do registro de casos da dengue na décima semana de epidemia quando comparada com a décima semana de epidemia de 2023. "O que vemos é um aumento exponencial da incidência da doença nos países latino-americanos", averigua.
Assim como no Brasil, José Rodríguez aponta as mudanças climáticas como a principal razão do avanço da disseminação da doença na América Latina. Observa-se que o número de casos cresceu três vezes neste período de 2024 se comparado com o mesmo período de 2023. Em relação aos vetores da dengue, Rodríguez afirma que o mosquito Aedes aegypti é o maior vetor da doença na região. Também sinaliza para o fato de que o período de transmissão está alargando em quase todas as regiões latino-americanas. O Brasil é o país que lidera o número de casos, seguido pelo Paraguai, Argentina, Colômbia, Peru, México e Nicarágua. O país também lidera o número de óbitos, com Argentina, Peru, Paraguai, Colômbia, Equador e Bolívia logo em seguida.
Entre os determinantes sociais da dengue, na América Latina, enumerados por José Rodríguez, estão: a falta de acesso à água potável, as altas densidades populacionais, as condições precárias de moradia, os sistemas sanitários insuficientes, as condições inapropriadas para dispensa do lixo, os movimentos migratórios, os baixos níveis de educação e a pobreza.
Ao fim das apresentações, o debate foi aberto para que o público fizesse algumas perguntas aos participantes. Entre as questões suscitadas, a experiência brasileira com a vacina contra a dengue. O dr. Carlos afirmou que até hoje não foi relatada nenhuma reação grave em relação à vacina e que devido à limitação de produção das doses a vacina só deve apresentar resultados expressivos a longo prazo. "Neste momento o recorte é bem restrito; são seis milhões e duzentas mil doses disponibilizadas para o grupo prioritário", informa. Outra questão abordada pelo público foi o que esperar para os próximos anos, como os países podem preparar-se para combater a dengue em momentos futuros, com o avanço das alterações climáticas e a questão delicada das regiões de fronteira. Foi a vez do consultor da OPAS, José Rodríguez, responder: "A dengue tem se apresentado como casos cíclicos, que se repetem a cada dois, três anos. Nos tempos de baixa incidência, temos que nos preparar para os períodos epidêmicos, investir nos planos de contenção da doença".
Outra pergunta do público diz respeito à imprensa e à divulgação do conhecimento por parte da ciência: como lidar com a comunicação da situação da dengue? José Rodríguez comenta: "O que não se pode fazer nunca é ocultar informação. A informação científica tem que ser difundida, e tem que haver um trabalho direcionado de comunicação nas áreas fronteiriças. Um programa de comunicação com os periódicos e jornais que acompanhe a agenda da questão epidêmica". Carlos Albuquerque complementa: "A divulgação dos sintomas de alarme para a população. No período de grande risco da doença, fazer uma comunicação com transparência".
O mediador do debate e pesquisador da ENSP/FIOCRUZ, André Périssé, levanta a importância das redes, como a RESP, na disseminação do conhecimento. O pesquisador Carlos Albuquerque acrescenta à fala de Périssé: "As redes são fundamentais na informação, capacitação dos profissionais e disseminação da ciência. As redes promovem o acesso à informação de qualidade".
Quem tiver interesse, acesse o link do canal do YouTube da RESP com o webinário "Dengue na América Latina: situação, preparação e resposta dos sistemas de saúde" na íntegra: https://www.youtube.com/watch?v=Z7suEGOwrVQ
Acesse também a mídia social da Rede de Escolas de Saúde Pública da América Latina (RESP) para mais informações e acompanhe as postagens: https://www.instagram.com/resp.america.latina?igsh=ejF3c3UxMnMydGtm
(Texto: Paulo Sabino/ ACI)