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RESP América Latina realiza primeira oficina presencial após seis anos e fortalece cooperação regional em saúde pública

Por Thathiana Gurgel

Após seis anos de articulação virtual, a Rede de Escolas e Centros Formadores em Saúde Pública da América Latina (RESP-AL) realizou, nos dias 24 e 25 de novembro de 2025, a oficina “Escolas e Centros Formadores de Saúde Pública na América Latina e os Sistemas de Saúde Baseados na Atenção Primária”, no Rio de Janeiro, Brasil. Organizado pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz) e pela RESP, o encontro reuniu instituições líderes da região para fortalecer intercâmbios, análises e cooperação estratégica voltada ao desenvolvimento da saúde pública na região. 

A programação teve início com a conferência “Funções Essenciais da Saúde Pública e Redes Integradas de Serviços de Saúde: Novas Perspectivas”, conduzida por Ernesto Báscolo, chefe da Unidade de Atenção Primária à Saúde e Prestação Integrada de Serviços do Departamento de Sistemas e Serviços de Saúde da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS), no auditório da ENSP, aberta ao público. Na atividade, Báscolo apresentou os marcos atualizados das Funções Essenciais da Saúde Pública e destacou os desafios que limitam a organização dos sistemas de saúde, como barreiras de acesso, desproteção financeira, desigualdades estruturais e fragilidades no financiamento público. Também foram debatidas novas diretrizes das Redes Integradas de Serviços de Saúde (RISS), que passam a incorporar a transformação digital e o uso de tecnologias emergentes. 

A atividade foi coorganizada em parceria com o Centro Colaborador da Opas/OMS para Formação em Sistemas de Saúde com Ênfase em APS e com o Observatório do SUS, ambos da ENSP. Representantes da Fiocruz e da Opas ressaltaram o papel estratégico da RESP na formação de sanitaristas e na qualificação dos sistemas de saúde. As intervenções ressaltaram a necessidade de articulação regional frente aos desafios comuns vividos pelos países latino-americanos, entre eles desigualdades sociais profundas, escassez de força de trabalho, emergências sanitárias e climáticas, insegurança alimentar e limitações na organização dos serviços para garantir acesso universal. 

Ao longo da tarde, as atividades foram destinadas exclusivamente aos representantes dos diversos países da região, como: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, México, Paraguai e Uruguai, que compartilharam diagnósticos e experiências. Eduardo Melo, vice-diretor da Escola de Governo em Saúde (ENSP/Fiocruz) abriu os trabalhos reforçando a importância de identificar desafios comuns e fortalecer processos decisórios que integrem formulação, implementação e monitoramento das políticas. Também trouxe estratégias de integração entre as escolas e centros formadores de saúde pública e os sistemas nacionais orientados pela Atenção Primária.  

Os participantes trouxeram elementos da realidade dos sistemas de saúde locais, como a base solidária e intersetorial do sistema da Costa Rica e o papel estratégico da ciência no sistema cubano. As falas evidenciaram que a formação em saúde precisa incorporar questões sociais, enfrentar desigualdades e responder de maneira mais direta às necessidades locais dos territórios. 

Debates estratégicos e avanços na agenda coletiva da RESP 

O segundo dia da oficina, também exclusivo às instituições que compõem a RESP, concentrou-se na construção das agendas coletivas de trabalho. Pela manhã, Frederico Peres, pesquisador do Centro de estudos de Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (CESTEH/ENSP/Fiocruz), apresentou os resultados do Mapeamento Regional da Formação em Saúde Pública, que revelaram a diversidade e as lacunas do cenário formativo latino-americano. Ele destacou que a região enfrenta simultaneamente crises sanitárias e sociais, com problemas relacionados à qualidade da água e da habitação, além da emergência climática e alimentar. 

Para Peres, os processos formativos precisam integrar de forma mais sistemática a interdependência entre saúde, ambiente e desigualdades. O estudo também mostrou a redução recente de cursos em alguns países, como Cuba e Venezuela, a urgência de fortalecer a qualificação de profissionais responsáveis pela formação e de renovar metodologias para superar modelos tradicionais de ensino.  

Na sequência, Gabriel Listovsky  chefe do Programa Campus Virtual em Saúde Pública da Opas/OMS, apresentou o papel estratégico do Campus Virtual, plataforma que fortalece competências profissionais e promove a transformação dos serviços de saúde. Ele ressaltou que o Campus, orientado por princípios de bem público, educação continuada e recursos abertos, tornou-se um espaço de aprendizagem colaborativa. Também destacou o crescimento do portal, que já supera 11 milhões de matrículas em cursos gratuitos e autoguiados disponíveis nos quatro idiomas oficiais. Por fim, enfatizou as oportunidades de cooperação técnica e certificação conjunta, capazes de articular percursos formativos e responder às demandas emergentes dos sistemas de saúde. 

A programação da manhã foi encerrada com a discussão sobre o uso de inteligência artificial na formação e na pesquisa em saúde pública. Conduzida pela argentina Marisel Colautti, pesquisadora da Universidade Nacional de Rosário (UNR), a conversa abordou potenciais aplicações e desafios éticos, técnicos e institucionais do tema, que se apresenta como eixo emergente para as próximas décadas. 

Integração entre escolas e sistemas de saúde 

Na tarde do dia 25, foi apresentado o andamento do Estudo Diagnóstico de Escolas e Centros de Formação em Saúde Pública na América Latina, iniciado em 2024 com a criação, no âmbito da RESP, de um grupo de trabalho dedicado ao tema e avançando, em 2025, para a elaboração, teste e validação do questionário que permitirá mapear características institucionais dos integrantes da RESP. O estudo tem como objetivo construir um panorama inicial e abrangente das escolas e centros formadores que fazem parte da RESP, identificando capacidades, necessidades e potencialidades para cooperação. Entre os resultados preliminares, destacou-se que 56,3% das instituições já utilizam mecanismos formais de interação e comunicação para ampliar o diálogo com atores e organizações estratégicas, evidenciando avanços e desafios de articulação regional. Esse diagnóstico servirá de base para orientar ações conjuntas e fortalecer a formação em saúde pública frente às demandas crescentes dos sistemas de saúde latino-americanos. 

A pesquisadora da ENSP e coordenadora da Rede Brasileira de Escolas de Saúde Pública (RedEscola), Márcia Fausto, destacou que o sentimento de pertencimento às instituições e redes é fundamental para o enfrentamento coletivo dos desafios regionais. No caso brasileiro, chamou atenção para o peso das desigualdades de gênero, raça e renda, que precisam ser pautadas de maneira estruturante na formação em saúde. Ela também revisitou a contribuição do Programa Mais Médicos para a qualificação de profissionais e para a estruturação da saúde da família. 

Representantes de países como Argentina, Chile, México e Uruguai trouxeram diagnósticos convergentes, destacando avanços na cobertura universal, a necessidade de fortalecer ações preventivas, a insuficiência de recursos humanos para atender às demandas dos sistemas e a carência de informações qualificadas para tomadas de decisão. A defesa da saúde como direito, presente em diversos relatos, reforçou a necessidade de aprofundar capacidades institucionais, políticas e formativas para lidar com desafios complexos e persistentes na região. 

Perspectivas da Rede 

A oficina foi encerrada com a apresentação das perspectivas de trabalho da RESP para o próximo ano, seguida de avaliação coletiva. O encontro marcou uma nova etapa para a Rede, reafirmando o compromisso de suas instituições com uma agenda integrada de formação, pesquisa, inovação e cooperação estratégica. Os dois dias de atividades reforçaram que, diante de desafios comuns, a atuação coordenada entre escolas e centros formadores é essencial para fortalecer os sistemas de saúde e promover avanços em direção à equidade e ao direito universal à saúde. 

As perspectivas de ações conjuntas da RESP para 2026 incluem o desenvolvimento de formação em rede, seja por meio de atualização ou especialização, oferecida por escolas e instituições dos países participantes com um programa comum e definição de ênfase, foco ou tema; a realização de pesquisas e produção bibliográfica em rede, com escolha temática e estratégia de desenvolvimento articuladas; a formação de docentes em escolas e instituições, como programas de doutorado em saúde pública, avaliando sua pertinência e viabilidade; além de outras propostas como a cooperação e a intervenção junto à gestão dos sistemas de saúde ou à sociedade, e o intercâmbio de experiências e iniciativas entre as instituições envolvidas. 

Sobre a RESP-AL 

A Rede de Escolas e Centros Formadores de Saúde Pública da América Latina (RESP-AL) é uma articulação colaborativa dedicada a fortalecer capacidades institucionais, formativas e de pesquisa em saúde pública, promovendo cooperação e produção compartilhada de conhecimento para contribuir com o aprimoramento dos sistemas de saúde da região.